Como a chegada da facção altera a vida de milhares de moradores?

Área dominada pelos criminosos — Foto: Editoria de Arte.
A comunidade de Jacarepaguá, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, vive um momento de tensão e medo. Relatos recentes revelam o avanço do Comando Vermelho (CV), que, em pouco mais de um mês, estabeleceu uma célula criminosa em uma região antes dominada por milicianos. A instalação foi marcada por disparos e ameaças, deixando a população em estado de pânico.
“No último dia do ano, jovens armados dispararam tiros para o alto, criando um clima de terror,” explica uma moradora que preferiu não se identificar. Moradores relatam que a área afetada se estende por aproximadamente 55 mil metros quadrados, entre a Estrada Santa Maura e a Rua Abadiana. Esses eventos marcam não só uma troca de poder, mas uma transformação completa na dinâmica local.
Os reflexos dessa nova realidade são severos. “Eu fechei tudo porque fiquei com muito medo,” diz uma comerciante, cujo negócio se tornou insustentável diante das extorsões. Segundo informações da polícia, o problema é real e complexo. Em janeiro do corrente ano, o 31º BPM (Recreio dos Bandeirantes) apreendeu 22 armas de fogo, o maior volume em duas décadas, refletindo a gravidade do aumento da criminalidade na região.

PM apreende drogas e dinheiro em espécie em banca dominada pela facção, em Jacarepaguá — Foto: Divulgação/ PMRJ.
O Comando Vermelho não apenas tomou conta da zona, mas também alterou as relações pessoais e comerciais da comunidade. Relatos indicam que muitos dos envolvidos no tráfico eram conhecidos dos moradores, o que facilitou a imposição do medo e da intimidação. “Os criminosos começaram a cobrar de nós, comerciantes, somas significativas de dinheiro, variando de R$ 200 a mais de mil reais por mês,” relatou um comerciante.
Com o aumento da violência, e uma constante sensação de insegurança, negócios que sustentavam famílias por anos estão fechando. “A presença deles aqui destruiu nossa rotina,” afirma outrora uma mulher que vendia ervas e produtos em uma banca, local que agora é um ponto de venda de drogas.
Em sua defesa, a Polícia Militar, em documentos internos, admite que a criminalidade está em ascensão e ordenou um reforço nas operações de patrulhamento. Contudo, defende que não há indícios de uma expansão territorial do CV, contrariando o que observam os moradores.
A socióloga e especialista em segurança pública Carolina Grillo resume a situação ao afirmar que se trata de um modelo de “território sob influência”, uma fase que pode preceder a total dominação do local por facções criminosas. “É essencial agir agora, enquanto ainda é possível prevenir que pontos fixos de venda de drogas se estabeleçam,” alerta.
Assim, a luta contra o crime em Jacarepaguá se torna emblemática da batalha maior enfrentada em diversas comunidades do Brasil. A verdadeira solução pode residir não apenas em temor e repressão, mas na aplicação de políticas públicas que instiguem inserção social e desenvolvimento econômico sustentável.
Moradores e especialistas pedem uma resposta mais eficaz e agressiva das autoridades, que vá além da repressão, e que busque um futuro em que o medo e a violência não sejam protagonistas na vida dos habitantes de Jacarepaguá.
Referências
- https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/05/11/como-nasce-o-medo-cv-instala-celula-do-trafico-em-area-da-milicia-em-jacarepagua-e-aterroriza-moradores.ghtml
- https://diariodoestadogo.com.br/comando-vermelho-expande-dominio-em-jacarepagua-e-aterroriza-moradores/
- https://www.gov.br/prf/pt-br/noticias/estaduais/rio-de-janeiro/2026/maio/prf-prende-integrante-de-milicia-na-zona-oeste-do-rio
