O que a imagem do encontro pode significar para a política brasileira?

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático – ASEAN em Kuala Lumpur, Malásia. — Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República
A recente reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, ocorrida no último domingo (26) durante a cúpula da ASEAN na Malásia, provocou uma série de reações tanto na esquerda quanto na direita brasileira. Este encontro, que durou cerca de 45 minutos, trouxe à tona disputas narrativas entre os aliados de ambos os líderes.
Os apoiadores de Lula rapidamente exaltaram o resultado da reunião, destacando que “a química só aumenta” entre os dois líderes, conforme mencionou o senador Humberto Costa (PT-ES). Contudo, do lado da direita, especialmente no entorno de Jair Bolsonaro, a visão foi bem diferente. A imagem do ex-presidente ao lado de Trump foi considerada, em muitos círculos, como uma “derrota” para Bolsonaro e seus aliados.
Como relata Andréia Sadi em seu blog, “a avaliação no entorno de Bolsonaro é que Lula consolidou a interpretação de que ocupou o espaço de interlocutor com Trump, espaço esse antes ocupado primordialmente por Eduardo”. Essa percepção é agravada pela possibilidade de que o deputado Eduardo Bolsonaro, que esteve nos EUA articulando políticas, tenha sido tratado ironicamente como “cabo eleitoral” do petista no Planalto.
Os bolsonaristas, por sua vez, desdenharam do tom positivo da reunião, insistindo que as negociações não avançaram substancialmente e que o “tarifaço” imposto pelos EUA ainda persiste. Eduardo Bolsonaro foi um dos que criticou, sugere que Lula estaria incomodado com a cordialidade do ex-presidente dos EUA em relação a Bolsonaro, mas também deixam claro que a atual administração pode estar ganhando capital político a partir desse diálogo.

Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump durante encontro na Malásia; a reunião incluiu discussões sobre tarifas que afetam o comércio entre os países.
Embora a esquerda celebre o encontro como um retorno ao diálogo e uma oportunidade de avançar nas negociações sobre tarifas, muitos críticos apontam que a falta de avanços reais deve ser reconhecida. Eles observam que acordos e elogios superficiais não resolvem problemas complexos que envolvem tarifas e sanções.
Na análise dos especialistas, como a cientista política Juliana Fratini, “a postura da esquerda a respeito da reunião mostra que, de olho nos ganhos políticos eeconômico, o interesse por um bom relacionamento se torna mais forte do que o desdém”. No entanto, críticos dentro da própria esquerda notam a incoerência em celebrar um líder que costuma ser visto como “fascista”.
O resultado imediato dessa reunião, no entanto, ainda permanece nebuloso. Embora simbolicamente importante, muitos esperam que o governo de Lula consiga efetivamente negociar a redução das tarifas. A questão que permanece é até que ponto este diálogo será suficiente para alinhar interesses tão distintos entre os dois países.
Além das controvérsias em torno do encontro, questões nacionais como a perseguição judicial a lideranças políticas permanecem como obstáculos. Lula, ao se oferecer mediador da tensão entre os EUA e a Venezuela, enfatiza a necessidade de um canal de diálogo, mas seus críticos argumentam que isso pode ser uma tentativa de desviar a conversa de tópicos incômodos.
Referências
- https://g1.globo.com/politica/blog/andreia-sadi/post/2025/10/27/no-entorno-de-bolsonaro-foto-de-lula-e-trump-e-vista-como-derrota-planalto-trata-eduardo-como-cabo-eleitoral.ghtml
- https://www1.folha.uol.com.br/poder/2025/10/aliados-de-bolsonaro-e-de-lula-modulam-discursos-e-buscam-narrativas-proprias-sobre-trump.shtml
- https://www.gazetadopovo.com.br/republica/china-venezuela-stf-e-magnitsky-os-recados-de-trump-que-frustram-lula/
